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April 23, 2018

ENTREVISTA CAMILA PIÑEIRO HARNECKER Cuba e o cooperativismo por Joana Salém Vasconcelos

published in Le Monde Diplomatique Brasil

Joana Salém Vasconcelos, doutoranda em História Econômica (USP), autora de História agrária da revolução cubana e coorganizadora de Cuba no século XXI, entrevista Camila Piñeiro Harnecker, uma das maiores referências em estudos sobre cooperativismo em Cuba


Em memória de Paul Singer

“Os clássicos parecem ter caído num reducionismo evidente. Pensavam que, se a propriedade privada dos meios de produção é a causa da divisão da sociedade em classes, a abolição daquela implica eliminação desta. Mas a abolição da propriedade privada exige a criação de um regime de propriedade coletiva, sobre o qual eles nada tinham a dizer (…). O planejamento centralizado, que foi a marca registrada do ‘socialismo’ soviético, nada tem a ver com a socialização dos meios de produção. Se todos eles pertencem ao Estado, em tese cada cidadão é proprietário de meios de produção. Mas isso não passa de uma ficção jurídica. Na prática, o controle sobre a economia era exercido pela cúpula do partido, que também era a cúpula do Estado. E os trabalhadores continuaram tão subordinados quanto no capitalismo. A experiência do socialismo ‘realmente existente’ constitui uma grande lição histórica, que nos ensina que socializar tem que necessariamente significar descentralizar o poder, ou seja, o controle dos meios de produção tem que ser exercido diretamente pelos trabalhadores sobre cada unidade produtiva”.

Paul Singer, 1999[1]



Desde que as reformas econômicas destinadas a ampliar o setor privado em Cuba foram anunciadas, em 2011, muitas interrogações surgiram sobre os destinos do socialismo na ilha.[2] Será que o país iria seguir os rumos mercantilistas da China? Seria uma perestroika cubana? Será que, apesar de anunciar a continuidade do socialismo, as reformas conduziriam a uma espécie de “retorno controlado ao capitalismo”? Com qual intensidade e em qual ritmo? Ou seria mesmo uma mudança lenta e dentro dos marcos do socialismo? Nesse caso, como lidar com as novas desigualdades sociais? Afinal, quais critérios determinam a fronteira entre capitalismo e socialismo no mundo contemporâneo?